O dia que virei vendedor

Tinha catorze anos e trabalhava como auxiliar de escritório em uma loja de calçados. Além desse serviço ainda varria a calçada e ajudava na limpeza geral da loja fora do horário. O pagamento era uma bengala ou um filão de pão com mortadela.  Eu ficava fascinado com o trabalho dos vendedores e, por isso, adiantava ao máximo o meu serviço para poder ficar na frente da loja ajudando os vendedores.  “Guarda esses sapatos, Edu”! “Faz esse pacote para mim”! “Vai buscar uma esfiha na padaria!”… Com o passar do tempo eles me deixaram participar das vendas e, aos poucos, foram me direcionando para o atendimento dos clientes. Um dia entrou na loja uma senhora com uma grande sacola e os vendedores começaram a fazer um jogo de empurra-empurra para não atendê-la. O motivo? Ela era uma senhora muito grande e ao olharem o seu pé imaginaram que devia calçar 39 ou 40, e naquele dia a loja estava muito movimentada por causa de uma promoção de sapatos até o número 36 e todos estavam vendendo muito e ganhando uma boa comissão. Com isso, fizeram com que eu atendesse a senhora.

Para a minha surpresa esta senhora era uma “sacoleira”. Ela me contou que era de uma cidade vizinha e tinha visto o anúncio da promoção e estava lá para aproveitar a liquidação. Disse, ainda, que tinha um pequeno depósito em sua casa e que algumas mulheres trabalham para ela vendendo sapatos nos sítios da região. Para a surpresa de todos, aquela senhora fez uma compra tão grande que parte da mercadoria precisou ser mandada depois, pois a cliente não conseguiu levar. Nossa, eu não acreditava no que estava acontecendo! Ela só dizia: uma dúzia deste, menino; duas dúzias daquele…. E pagou tudo em dinheiro! Quando cheguei ao caixa com aquele grande pedido a dona da loja ficou exultante. Foi a maior venda do dia e seguramente, de acordo com o dono da loja, a maior venda da loja até então. No outro dia pela manhã, ele me chamou para dizer que eu não ia mais bater as faturas e nem varrer a calçada.

“Vamos te dar algumas roupas usadas de nosso filho e um sapato novo. Você fará parte da nossa equipe de vendedores, pois é um menino muito esforçado”, disse o dono do local. Aquilo parecia um sonho, algo que jamais poderia imaginar que aconteceria…  A venda, o abraço dos colegas, a roupa, o sapato e a promoção. Eu me tornei – com muito orgulho – o mais novo vendedor da loja!